"Vai, menina. Escreve!", ela disse generosa e ainda completou, "se esvazia".
Não, não quero me esvaziar. Porque toda vez que penso nessa palavrinha parece que vou me esgotar, me secar e me acabar. E eu quero permanecer cheia. Sim, cheinha. Mesmo que pra isso tenha que me manter quietinha pra que nada transborde. Transbordar. Quando ela me chacoalha é o que acontece; bem ali pelas bordas minhas espalha-se corpo afora denso amor. Eu quero a paz em estar nutrida por esse sentimento e ela espera que eu o derrame - da boca pra falar ou de punho cerrado a escrever. Mas moça, não posso, veja: isso me mantém farta e completa. Você não entende né?, quando é amor ele fica abarrotado lá dentro, agitado, movimentando-se em espirais e abrandando todos os outros sentimentos opostos. Talvez com o tempo eu aprenda a dar vazão pra sua ideia, porém, por enquanto, me sinto satisfeita em continuar enfastiada por essa sensação e não será em palavras que ele irá me entornar, mas sim no a-mar.
Aprende também, moça, que se for pra sofrer em nome do amor e precisar se esvaziar, escreva. E se for verdadeiro em palavra exalte-o e grafe o nome dele em todas as linhas do seu manuscrito. Rabisque os traços dele em todos os lugares e deixe o vocábulo tornar-se oração.







